A BOSSA DA ROOSEVELT

Na década de 1960, a Praça serviu de insuspeito cenário para a popularização da Bossa Nova.

É fato notório que a Bossa Nova surgiu no Rio do Janeiro no final dos anos 1950, mas foi em São Paulo que o gênero encontrou terreno fértil para se desenvolver na década seguinte. E foi justamente na Praça Roosevelt e arredores, graças ao seu circuito de casas noturnas, que o ritmo se proliferou.

A Baiúca, Cave, Stardust e Djalma’s compuseram esse prolífico cenário, numa época em que a Praça era basicamente um grande estacionamento na região central. Mas, por um instante, ali foi a Ipanema dos paulistanos.

A mais famosa e duradoura casa foi A Baiúca, misto de restaurante e piano-bar, fundada em 1956 na Rua Major Sertório, e logo transferida para a Roosevelt. Foi lá que o Zimbo Trio se formou, e por onde passaram artistas como o pioneiro Johnny Alf, Walter Wanderley, Claudette Soares e Maysa.

A frequência de público era intensa e, certa vez, a atriz inglesa Vivien Leigh, do filme E o Vento Levou, visitou o local, atraída pela fama do restaurante e da boa música. Porém, viu-se obrigada a fugir dali, com os sapatos na mão, após uma confusão armada por um fã bêbado e exaltado.

Muitos artistas ainda se apresentaram por lá nas décadas de 1980 e 1970, entretanto, em 1994, com a degradação da região, A Baiúca se transferiu para o Itaim. Hoje, um supermercado ocupa seu espaço.

A boate Cave, na Rua da Consolação, também foi palco de importantes artistas, como Baden Powell e Alaíde Costa, e teria sido lá que Vinícius de Moraes proferiu a famosa frase “São Paulo é o túmulo do samba”, ao se irritar com ruidosos frequentadores que atrapalhavam a apresentação de Johnny Alf.

Do outro lado da praça ficava a “rival” Stardust, cujo coproprietário era Alan Gordin, pai do futuro guitarrista da Tropicália Lanny Gordin. O cantor Jair Rodrigues, acompanhado por Hermeto Pascoal, era uma das atrações, enquanto entre a clientela havia figuras como Bob Kennedy. Tempos depois, a Stardust cederia lugar ao Bon Soir.

Havia ainda o Farney’s (do cantor Dick Farney), que foi adquirido pelo pianista carioca Djalma Ferreira e reinaugurado como Djalma’s, em 1962. Lá, Elis Regina, ao lado de Sílvio César, fez seu primeiro show na cidade, em agosto de 1964.

Todas essas casas são história passada, mas a boêmia dos anos dourados ainda permeia, em parte, a velha Roosevelt. O badalado bar Papo, Pinga e Petisco, criado por um ex-proprietário do Bon Soir e Cave, o Doca, é situado onde já foi o Djalma’s, e ainda procurado por fãs de Elis Regina.

SÉRGIO BARBO

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