OS PERIGOS DE JERRY LEE LEWIS

Rock’n’roll e confusões sempre permearam a vida do lendário pianista.

O cantor e pianista Jerry Lee Lewis é uma das figuras primordiais do rock’n’roll, a bordo de verdadeiros emblemas sonoros dos anos 50 como “Great Balls of Fire”, “Whole Lotta Shakin’ Goin’ On” e “Breathless”. Não obstante sua habilidade com as teclas do piano e sua poderosa voz, Jerry Lee também era perito em chamar para si encrencas das mais diversas. Justificando o epíteto “The Killer”, ele foi protagonista de verdadeiros dramas (e, às vezes, tragicomédias) pessoais que envolviam alcoolismo, casamentos proibidos, mortes, prisões, conflitos pessoais e porte de armas.

As confusões parecem estar atreladas ao artista desde a infância. Segundo consta, quando possuía oito anos ele já revelava talento para a música. Seus pais, então, hipotecaram a casa para comprar-lhe um piano – como resultado eles acabaram perdendo o imóvel por não pagar as prestações.

Já na adolescência, dormia durante as aulas porque passava as noites em inferninhos escutando música negra. Para não descambar para a delinquência, seus pais o mandaram para um colégio religioso, mas, de acordo com outro lenda, foi expulso porque verteu o hino “My God Is Real” em uma versão boogie woogie. Curiosamente, seu primo Jimmy Lee Swaggart, também pianista, seguiu os passos do Senhor e transformou-se em um famoso pastor.

Jerry Lee preferiu seguir os caminhos profanos do showbiz e se tornou sucessor natural de Elvis Presley na Sun Records e um dos maiores nomes do rockabilly, ganhando em 1989 uma cinebiografia (estrelada por Dennis Quaid e Winona Rider) enfocando essa fase. Contudo, mesmo no auge ele não conseguiu se afastar das trapalhadas. Uma dessas tumultuadas histórias dá conta que, certa vez, sentindo-se humilhado por abrir o show de Chuck Berry, ele ateou fogo em seu próprio piano para que o guitarrista não pudesse se apresentar depois. E ainda rematou, presunçoso: “Quero ver ele fazer um show melhor do que esse”.

Outra divertida lenda envolve o amigo e rocker Gene Vincent; os dois músicos estavam na mesma turnê em 1958, na Flórida, quando resolveram disputar um racha automobilístico. Gene, alertado sobre policiais na estrada por um de seus músicos reduziu a marcha, enquanto Jerry Lee seguiu correndo até ser barrado pelo guarda. O pianista, bêbado e sem documentos, disse ao policial que seu amigo poderia identificá-lo como “o grande Jerry Lee Lewis”, mas qual não foi sua surpresa quando Gene, marotamente, disse não conhecê-lo. Lewis ficou preso até que conseguisse mandar um telegrama para Memphis (onde estava sua gravadora) para que pagassem sua fiança. Em liberdade, tomou outro porre e nem esperou o show – que deveria ser encerrado pelo próprio Jerry – terminar. Trôpego, saiu correndo em pleno palco atrás de Gene Vincent (que era manco) com um porrete. Conclusão: foi preso novamente.

Mas confusão maior mesmo foi quando, naquele mesmo ano, ele resolveu levar sua esposa de 13 anos, Myra Gale Brown, para sua primeira turnê na Inglaterra. Detalhe: Myra era sua prima de segundo grau, filha de seu primo e baixista de sua banda, J.W. Brown. E ele, com 22 anos, ainda estava oficialmente casado com sua segunda esposa (segundo o próprio, ele se casou pela primeira vez aos 14 anos). Quando a imprensa inglesa descobriu o fato o alarde foi grande, causando tamanha publicidade negativa que acabou levando a carreira do incendiário pianista por água a baixo. A tragédia se completou quatro anos depois quando o pequeno filho do casal morreu afogado na piscina de casa.

Após a derrocada, seguiram-se anos de bebedeira, drogas, troca de gravadoras e problemas com o imposto de renda. A despeito disso, ele gravou em 1964, ao lado do grupo Nashville Teens , Live At Star Club, Hamburg, considerado por muitos como um dos melhores álbuns ao vivo da história do rock, e ainda conseguiu criar uma carreira de prestígio no cenário country a partir do final dos anos 60.

Contudo, a aura de tragédia se fez novamente presente nos anos seguintes quando a morte permeou sua vida de várias maneiras. Em 1973, ele perdeu seu filho, Jerry Lee Lewis Jr., de 19 anos, num acidente automobilístico. A sua quarta esposa morreu sob circunstâncias misteriosas na piscina da casa de um amigo, em 1982, enquanto sua quinta esposa morreu de overdose de metadona, um ano depois. E o próprio músico, devido a seu comportamento irresponsável, quase morreu por causa de uma úlcera perfurada no final dos anos 70.

Em 1976, quando comemorava seu quadragésimo primeiro aniversário, The Killer baleou acidentalmente seu baixista Butch Owens na barriga. Imaginando que a arma estava descarregada, ele a apontou de brincadeira para o amigo. Por sorte, o baixista sobreviveu. Poucos meses depois, seus dedos leves ressurgiram, dessa vez, na frente da mansão de Elvis Presley. Os dois eram clientes das pílulas do suspeito Dr. George Nichopoulos e, aparentemente, Elvis o convidara para ir a sua casa – mas os seguranças não sabiam da visita. Brandindo um revólver, o temperamental pianista tentou invadir Graceland e foi novamente preso.

Até mesmo alguns fãs brasileiros puderam constatar de perto sua eterna aptidão para o caos – e seu inquestionável talento, claro – quando ele se apresentou pela primeira vez no país, em 1993. Agendado para apresentações em São Paulo, Lewis bebeu e deu vexame no programa de TV de um famoso e rotundo apresentador, enquanto seu primeiro show durou, para desespero dos fãs, pouco mais de meia hora. Entretanto, refeito da ressaca na segunda noite, e provando de fato que é “o grande Jerry Lee Lewis”, ele apresentou um dos maiores shows de rock’n’roll que o público brasileiro já presenciara.

Após anos de vida pessoal conturbada e carreira errática, Jerry Lee Lewis gravou recentemente dois discos de enorme sucesso, com participações de gente como Mick Jagger, Jimmy Page, John Fogerty, B.B. King, Ringo Starr, entre outros. Por sinal, Last Man Standing (Último Homem Em Pé), de 2006, foi aclamado por público e crítica, vendendo um milhão de cópias ao redor do mundo e se tornando o álbum mais vendido de sua carreira.

Mas, como era de se esperar, um de seus últimos feitos envolve mais uma vez a polêmica. Em março de 2012, aos 76 anos, o “Matador” se casou pela sétima vez – e novamente com um membro de sua família. Dessa vez, a “vítima” foi Judith Brown, ex-esposa de seu primo e antigo baterista, Rusty Brown – que, a propósito, também foi seu cunhado, uma vez que ele é irmão de sua terceira esposa, Myra. Pelo visto, além de rock’n’roll e confusões, Lewis é perito em negócios em família.

SÉRGIO BARBO

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s