A Treta entre RY COODER e KEITH RICHARDS (ou O Disco dos Stones Sem Richards)

Além de grandes discos, a relação entre os dois músicos gerou atritos e acusações de roubo. E também o único “disco” dos Stones sem Richards.

Notório por ter sido o responsável pela redescoberta da música cubana nos anos 1990, o californiano Ry Cooder também é reconhecidamente um dos melhores guitarristas de estúdio – além de ser um dos maiores especialistas na slide guitar (ou bottleneck). Músico camaleônico, se adapta a qualquer tipo de banda e estilo musical; com sua versatilidade e técnica apurada, ele vem tocando desde meados dos anos 60 com uma variedade de nomes que vão de Taj Mahal e Captain Beefheart a Doobie Brothers e Eric Clapton, passando até pelos Monkees e Rolling Stones. Mick Jagger e seu grupo, por sinal, sempre atentos a talentos emergentes, convidaram Cooder (ainda em início de carreira) para participar de dois discos dos Stones, Let It Bleed (de 1969) e Sticky Fingers (1971).

Com a demissão de Brian Jones em junho de 1969 até a entrada de Ron Wood, em abril de 1975, os Stones viveram em uma busca constante por um guitarrista que, a um só tempo, fosse bom músico mas não carismático o suficiente para roubar os focos de atenções dos “pavões” Jagger e Keith Richards. Mesmo após a entrada de Mick Taylor na vaga deixada por Jones, os Rolling Stones continuaram “flertando” com outros guitarristas. Um desses músicos foi justamente Ry Cooder – que foi apresentado a eles pelo produtor e arranjador americano Jack Nitzsche. Envolvido à época com trilhas sonoras, Nitzsche trouxe Cooder para tocar na trilha de Performance, filme de Nicolas Roeg e Donald Cammell, estrelado por ninguém menos que Mick Jagger.

Assim, iniciou-se uma ligação que mostrou-se produtiva, porém, conturbada. Em 1969, Cooder tocou no single “Memo From Turner”, o primeiro disco solo de Jagger, no antológico compacto “Sister Morphine”, de Marianne Faithfull, e no álbum Let It Bleed, dos Stones. Entretanto, assim que começaram as gravações do álbum, surgiram também as primeiras desavenças entre Cooder e Richards. Apesar de renderem um grande álbum voltado às raízes do rock americano (que trouxe o hit “Gimme Shelter”), as sessões teriam sido marcadas pela tensão entre os dois músicos, a ponto de eles não conseguirem ficar no mesmo ambiente sem trocarem comentários sarcásticos de um sobre o trabalho do outro.

Ry Cooder e Mick Jagger

Ao que parece, a intolerância continuou mesmo depois da edição de Sticky Fingers, álbum de 1971 que o guitarrista também havia participado. Cooder partiu para a ofensiva e acusou Richards de copiar suas ideias, desenvolvidas em descompromissadas jam-sessions durante as gravações de Let It Bleed. O ápice do atrito, foi a acusação de roubo de sua técnica de afinação aberta em sol (open G tunning) utilizada sem o devido reconhecimento em músicas como “Honky Tonk Women”.

Enquanto boatos sugerem que Richards gravou parte dos ensaios sem o conhecimento do músico americano, o primeiro alega que “Honky Tonk Women” foi criada enquanto ele e Mick Jagger estavam em férias no Brasil, entre dezembro de 1968 e janeiro de 1969. Em entrevistas da época, ele citou a influência de Mick Taylor no acabamento da música, mas em declarações recentes afirmou que a técnica de Cooder foi também uma referência.

Curiosamente, Marianne Faithfull passou por situação semelhante. Alegando ter escrito “Sister Morphine”, ao lado de Jagger e Richards, ela teve seu nome creditado somente em 1994, no relançamento de Sticky Fingers.

Infundadas ou não, o fato é que as acusações de roubo repercutiram tão mal, que os Stones acabaram lançando em janeiro de 1972 Jamming With Edward, um álbum com parte das tais supostas jams. O curioso é que não há no disco vestígio da presença de Keith Richards – Jagger, Charlie Watts, Bill Wyman, o tecladista Nick Hopkins e Ry Cooder são os únicos músicos –, o que dá margem à especulação de que os dois guitarristas não ficavam exatamente juntos no mesmo estúdio. O resultado parece realmente uma jam, só que de músicos bêbados, tamanho o despojamento do projeto. Na contra-capa do LP (que é considerado um lançamento não-oficial do grupo), algo inédito: uma carta do selo dos Rolling Stones se desculpando por vender um disco de tão baixa qualidade.

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